O Mistério dos Assassinatos em Sânscrito – Parte VI
0 comentários Postado por Elvis "Wolvie" às 23:16
Logo chegou o momento de interrogar as duas Manilow. Angela me avisou elas estavam aqui e pedi que entrassem.
- Muito bem, srta. Manilow.
- Rose, por favor.
- Ok. Muito bem, Rose, conte-me tudo que sabe e tudo que viu.
- Eu faço faxina pro pessoal do bairro, sr. Rocket, e achei que alguém tinha me indicado, não sei. Bom, anteontem eu cheguei em casa no fim da tarde e após o banho, já estava cochilando, quando o telefone tocou. Era o John Keats.
- Como era a voz dele?
- Grossa, mas meio fanhosa. Vai ver tava gripado, parecia estar.
- Prossiga, o que ele disse?
- Que queria que eu fizesse faxina no aquário na noite do dia seguinte, e que deixaria a chave e o dinheiro na caixa de correio.
- E você não achou isso estranho?
- Achei sim, sr. Rocket, mas a vida não tá fácil, e não posso negar cliente porque é estranho.
- Claro, claro. Continue.
- À noite vi que a chave estava lá e o pagamento também, e fui à loja, que fica a quatro ruas da minha casa. Quando abri a porta, vi... a... o sr. sabe, a...
- A moça.
- É, é. E saí correndo pra casa, deixei tudo escancarado, e tava chorando alto. Corri pra minha mãe, e ela ligou pra polícia, que pediu que eu voltasse ao aquário. E aí o sr. sabe.
- O sr. Keats não voltou a entrar em contato, não é?
- Não, não. E eu deixei a chave com o policial.
- Bem, eu agradeço a colaboração de vocês. Se precisar, voltarei a ligar. E me procure caso lembre de algo.
Nenhuma novidade.
Eu tinha pedido a dois policiais que já trabalharam comigo que interrogassem as pessoas, cada um na região de um crime, e que me avisassem caso encontrassem algum fato importante, encaminhando a testemunha para a delegacia, onde eu a interrogaria novamente. Então, um dos dois me telefonou:
- Paul!
- Boas notícias, Jones?
- Encontrei um cara que conhece o Dennis Brown que deixou impressões no quarto.
- Sério? Traga-o pra cá agora!
- Talvez o sr. prefira logo investigar a pista quente que ele deu.
- Qual?
- Um possível endereço do suspeito.
Anotei o endereço e já estava me preparando para ir ao local, quando Charles me ligou.
- Paul, relato preliminar da perícia: a outra garota morreu no domingo, não foi? Pois essa está morta desde a noite de sexta!
- Sexta?? Bom Deus!!
- Decididamente o assassino deve ser o mesmo. As mortes são semelhantes. Estava viva quando abriu o abdômen da mesma forma. E tudo indica que a mesma substância a matou, pois já identifiquei degradação do fígado.
- E o Joe?
- Na mesma. Só impressões da própria garota. Ele já está tentando identificá-la, qualquer coisa ligamos.
- Ok, Angela vai falar com você sobre nosso quartel-general. Até mais, Charles.
O assassino não parece cometer erros. Mas vamos ver se o sr. Brown fornece pistas melhores.
Já era quase meio-dia quando saí de carro acompanhado por um policial para ver se encontrava o sr. Brown.
O endereço era num bairro afastado, na periferia da cidade.
O policial estacionou em frente a um pequeno cortiço, com vários aglomerados de casas e quartos alugados. Descemos do carro e batemos numa porta suja. Dela surgiu uma senhora gorda com vassoura em mãos.
- Que é?
- Reside aqui um senhor Dennis T. Brown?
- Sim, mas ele num tá não. Tem uns dia que num aparece.
- Somos da polícia e queremos olhar o quarto dele, algum problema?
- Ele robô neguinho por aí?
- Não, minha senhora, só queremos conversar com ele e vistoriar seu quarto.
- Vô pegá a chave.
A senhora sumiu alguns instantes, nos deixando na porta, e voltou, sem a vassoura e com um molho imenso de chaves na mão.
- Como a senhora se chama?
- Mary. Vamo, é por aqui.
Então ela nos levou a um portão do lado direito da casa, o abriu e nos fez entrar. Era um corredor largo, com um pouco de lodo e musgo no chão, e paredes degradadas pela umidade. No teto tinha algumas vigas curvas de cimento, e ramificações de plantas se enroscando pela parede, demonstrando que aquele lugar talvez um dia já tenha sido belo e agradável.
Ao lado esquerdo tinha uma porta, e eu já estava me dirigindo a ela, mas a senhora Mary seguiu adiante, até um portão baixo de madeira. Empurrou-o bruscamente e nos vimos numa área mal-cuidada, com muito mato, ervas daninhas, e algumas belas flores contrastando com a paisagem. No fundo tinha uma larga porta de madeira, parcialmente bloqueada por uma antena caída.
A senhora Mary enfiou uma chave antiga na porta e a abriu, empurrando com dificuldade.
- Ceis pode olhá a vontade aí, depois me chama na porta preu fechá.
- Obrigado, senhora Mary.
Adentrei na escuridão do recinto, disposto a descobrir que mistérios estavam por trás do sr. Brown.
(inspirado na imagem acima)
O Mistério dos Assassinatos em Sânscrito – Parte V
0 comentários Postado por Elvis "Wolvie" às 23:15
Pedi a Angela que solicitasse ao sr. Hughes para alugarmos o prédio dele como sede, e entrei na minha sala para ver os e-mails. Minha eficiente secretária, que sempre madrugava no trabalho, tinha me enviado uma mensagem com a agenda de entrevistas da manhã.
09:00 - William Hughes
10:00 - sra. e srta. Manilow
Eram 8:15, então pedi que Angela me pusesse em contato com o pessoal da perícia. Ela ligou pro celular de Charles e transferiu pra mim.
- Paul.
- Charles, você e Joe foram fazer a perícia no aquário?
- Estamos aqui, acho que em uma hora podemos te dar alguma coisa. Mas tenho notícias a você sobre a outra vítima.
- Você conseguiu obter a causa da morte?
- Sim. Foi difícil, quase não dormi essa noite, mas cheguei a uma conclusão.
- Insuficiência respiratória? Parada cardíaca?
- Antes fosse. Ela foi envenenada. E por uma substância não-identificada. Nenhum dos resíduos encontrados é letal. A pessoa que fez o veneno provavelmente tem avançados conhecimentos químicos, pois obteve algo novo, ou desconhecido. O veneno agiu de forma lenta, então ela já estava envenenada quando ele abriu o abdômen, mas só morreu depois disso, de falência de alguns órgãos vitais, como fígado e rins. Enviei amostras para um amigo mais experiente, veremos se ele esclarece a questão.
- Certo. E Joe identificou a garota?
- Sim, Julia Edwards Grynspan, 15 anos.
- Ok. Assim que tiverem notícias da segunda vítima, me comuniquem.
Pedi que Angela obtivesse a ficha da garota e comunicasse aos pais do ocorrido, além de requisitá-los para depoimento, já na nossa sede de operações.
Após alguns instantes, Angela comunicou que o sr. Hughes estava na delegacia. Eu disse que ele podia entrar.
- Bom dia, sr. Hughes. Sente-se, por favor. Meu nome é Paul Rocket, e sou o responsável pelo caso.
William Hughes tinha 55 anos e possuía alguns imóveis, que alugava de maneira informal para diversas pessoas, por tempos variados.
- Quero que o senhor me conte quem alugou aquele seu imóvel e que contatos teve com a pessoa.
- Foi um homem chamado James Joyce. Ele me telefonou e disse que tinha visto meu imóvel e a placa com meu número e queria alugar por alguns meses. Marcamos de nos encontrar num bar nas proximidades do edifício, ele pegou as chaves e me deixou pago em dinheiro por três meses.
- Como ele era? Quero que me diga tudo que se lembrar a respeito.
- Bem, era um senhor de idade, quase careca. Tinha apenas uns tufos de cabelos brancos na parte de trás. E andava com dificuldade, apoiado em uma bengala. Tinha voz de quem é asmático, e tremia um pouco. Parecia bem fraco e adoentado.
- E o que o senhor pensou dele?
- Sr. Rocket, conversamos muito pouco, não mais que 5 ou 10 minutos. Tive apenas pena de um homem velho como aquele ter que subir toda a escadaria.
Nesse instante, o comunicador tocou.
- Sr. Rocket.
- Estou em depoimento, Angela.
- Eu sei, é que tem uma garota aqui, chama-se Josy Granger, e quer muito falar com o senhor. Está afobada e diz que é urgente.
- Ok, leve o sr. Hughes para o pessoal do retrato falado e mande a garota entrar.
Pedi ao sr. Hughes que falasse com Angela, e agradeci pela colaboração.
A srta. Granger entrou na minha sala soluçando.
- Acalme-se, srta. Granger.
- É que a garota morreu!!! E eu não fiz nada!! Nada!
- Calma! Que garota? Comece do início!
- Então, foi sexta-feira!
- O que foi sexta-feira?
- Eu lavo roupa, sabe, e estava estendendo alguns lençóis que a sra. Baggy tinha deixado pra lavar. E vi a moça entrando no aquário.
- Que moça?
- A moça que foi morta.
- A srta. viu ela entrando no aquário sexta?
- Então, eu tava estendendo os lençóis, e vi. Aquela loja tá desocupada há um tempão, e estranhei quando vi entrando a moça meio oriental, e ela estava acompanhada por um cara que me deu medo.
- Como era ele?
- Estava todo de preto, com as calças dobradas acima dos tornozelos. Parecia bem magro e não era muito alto. Usava um chapéu comum, um guarda-chuvas e estava descalço! Como alguém anda descalço naquele sol quente? Eu comentei com a sra. Baggy e ela disse que tem gente que é acostumada. Eu não sei não, pra mim é coisa de doido.
- Que horas eram?
- Antes do almoço. O almoço na casa da sra. Baggy é servido às 12:15 em ponto. O sr. sabe, ela gosta de tudo na hora.
- E você não viu o cara sair?
- Não, depois do almoço eu fui ajudar a Mimmy a lavar a louça. Na casa da sra. Baggy tem muita louça, aquele batalhão de gente! E eu tinha que esperar os lençóis secarem pra poder passar. Por isso fiquei ajudando a Mimmy, ela é tão fraquinha, nunca dá conta do serviço. E a sra. Baggy paga muito mal a coitada. Mas como eu ia dizendo, eu vi o tipo estranho e não fiz nada!
- Tudo bem, a srta. não tinha como saber. Muito obrigado, srta. Granger. Peça à minha secretária que a encaminhe pro retrato falado.
- Sim, senhor. O senhor é muito bondoso!
Que confusão! Eu tinha agora duas descrições distintas. Seria um grupo de assassinos? Algo não está encaixando bem aqui.
(inspirado na imagem acima, sugerida por Lucas Altamar)
O Mistério dos Assassinatos em Sânscrito – Parte IV
0 comentários Postado por Elvis "Wolvie" às 23:13
Tranquei a porta do lugar, pedi ao policial Jones que vigiasse o local do crime ou então solicitasse algum patrulheiro noturno, caso seu horário acabasse. Dispensei a srta. Manilow e sua mãe, e requisitei-as para prestar depoimento na delegacia na manhã seguinte.
Já passavam das 21:00 e pedi que o policial me levasse para casa.
Eu estava cansado e faminto, e com saudades da minha querida esposa.
Abri a porta, guardei a minha pasta dentro de uma estante, e ouvi um barulho na cozinha.
- Paul, você chegou!
Ela veio correndo da cozinha, com um avental cobrindo seu vestido vermelho, e me abraçou entusiasticamente, beijando meus lábios.
- Dia cheio?
- Você nem imagina... Temos um assassino serial à solta. Dois cadáveres encontrados num único dia. Temos algumas pistas, mas desconfio que nenhuma delas será muito promissora.
- Hmm, se bem lhe conheço, você não vai conseguir deixar de pensar nisso tão cedo...
- É, acho que você tem razão.
- A não ser que eu te distraia!!
- Hum?
- Vai tomar um banho que o jantar tá saindo!
Tomei uma chuveirada quente, vesti uma roupa confortável e fui à cozinha comer a deliciosa macarronada da minha esposa. A verdade é que não era tão deliciosa assim, mas era uma das únicas coisas que ela sabia cozinhar, e ela fazia com tanto amor que eu achava saborosíssima!
Em seguida fomos para a cama, assistir a uma comédia romântica, abraçados sob o lençol.
Quando o filme terminou, Suzie estava dormindo com a cabeça no meu peito. Desliguei a televisão e minha atenção logo se voltou às perguntas sem-resposta que rondavam meu subconsciente.
E então eu estava sentado em um lugar pedregoso e um tecido cobria minha face. Ventava bastante. Uma pessoa estava sentada atrás de mim e nossas costas se tocavam. Pelo calor emanado, eu sabia que era Suzie. Eu seria capaz de reconhecer seu corpo ao menor contato. Meu primeiro pensamento foi de tirar aquele pano do meu rosto, mas antes de fazê-lo, mudei subitamente de idéia.
- Suzie?
- Paul? O que é isso cobrindo as nossas cabeças?
- Não sei, parece um tipo de tecido. Você quer que eu tire?
- Eu... eu estou com medo. Parece-me que ver vai ser pior.
- Vou tirar da minha cabeça e depois eu digo se é seguro você ver, está bem?
- Certo, amor.
Tirei aquele pano do meu rosto e percebi que estávamos no topo de um monte pedregoso. Para todos os lados que eu olhava, havia um extenso campo verde. Virei-me e vi Suzie sentada, impassível. Puxei o tecido para que ela pudesse ver, mas tinha outro embaixo. Puxei este também, e tinha mais outro. E quanto mais panos eu tirava da face da minha esposa, mais tecidos parecia ter encobrindo-a.
E então me virei nervoso e eu já estava em outro lugar. Vi a garota estripada do dia anterior deitada no chão, e atrás dela, o aquário com a segunda vítima. Mas ao invés de uma mensagem estranha, na primeira tinha escrito "Não olhe" e na segunda "para trás".
Olhei para trás.
Suzie estava deitada atrás de mim, ainda com o tecido cobrindo-lhe a face, mas seu vestido estava rasgado e vi de relance que seu abdômen estava aberto e órgãos saíam de dentro.
Bastou essa visão por uma fração de segundo e despertei assustado. Suzie estava dormindo em cima de mim, e como me sentei de súbito, acordei-a.
- Hmm...Pa-ul? Tá tudo... beeeemm? - sua voz estava mais dormindo que acordada.
- Eu tive um pesadelo, só isso.
- Hmm... - e voltou a pegar no sono.
Beijei sua testa suavemente, vi que ainda eram 4 da manhã e me deitei mais uma vez.
Às 6:15 o som me despertou e, conforme a rotina, tomei meu banho, ajudei o meu anjinho a despertar, fiz nosso café e saímos às 7:30, Suzie dirigindo e me deixando na delegacia.
Mal entrei no lugar e Angela correu na minha direção.
- Sr. Rocket!!
- Diga, Angela.
- O sr. Nolan quer vê-lo imediatamente.
- Certo, estou indo.
Joshua Nolan era meu superior e se queria me ver, provavelmente deveria ser a respeito dos assassinatos.
Bati em sua porta.
- Entre.
Sua sala era repleta de papéis empilhados e muita poeira. Nolan fumava charutos o dia inteiro e o odor era desagradável, além da fumaça que estava sendo expelida nesse exato momento pelo charuto da vez.
- Sente aí, Paul.
- Pois não, sr. Nolan.
- Preste atenção: eu quero esse assassino fora das ruas, entendeu? Preso ou morto, pra mim tanto faz. Mas eu quero sua dedicação integral ao caso. Você tem minha autorização para proceder da forma que desejar. E os homens estão ao seu dispor, escolha alguns para auxiliá-lo. Deixe de dormir, se for preciso, mas resolva-o!
- Sim, senhor.
- Ah! E quero ter um e-mail seu para ler todos os dias quando eu chegar à delegacia, informando o andamento das investigações.
- Perfeito.
- Pode ir, era só isso.
- Senhor!
- Hum?
- Pensei em montar um lugar mais reservado, algo como uma base de operações para a investigação. Tenho permissão para fazer isso?
- Como quiser. Agora suma, tenho o que fazer!
- Tenha um bom dia.
(inspirado na imagem acima, sugerida por Onã)
O Mistério dos Assassinatos em Sânscrito – Parte III
0 comentários Postado por Elvis "Wolvie" às 23:11
Se o gato preto podia entrar, alguém podia sair. Corri para o quarto do primeiro andar e encontrei o gato aninhado num canto, com um rato na boca. Não havia luz no ambiente. Olhei ao redor e nada encontrei de interessante. Então tive uma idéia. Subi as escadas novamente e comecei a tatear o chão por toda parte. Pedi uma lanterna fosforescente a Joe e olhei debaixo da cama. Havia um quadrado com menos poeira que o resto. Pus nele minhas mãos e descobri um alçapão para o quarto do primeiro andar. Eu tinha achado a rota de fuga do nosso assassino.
Eram quase 19:00 quando Suzie me telefonou:
- Paul, tou saindo agora, quer que eu te pegue em algum lugar?
- Não, querida. Tou num caso meio complicado, vou demorar mais um pouco. Os rapazes vão me deixar, tudo bem?
- Claro, amor. Cuide-se! Beijo.
- Beijo.
Perguntei a Charles quando ele podia me dar o resultado da causa da morte e ele disse que provavelmente na manhã seguinte. E pedi a Joe para tentar identificar a garota, de forma a podermos avisar a família e investigar seus últimos passos. Descemos todos a escada, a dupla foi embora no furgão da perícia, e eu fui na viatura com o policial. O outro policial ficou aguardando um terceiro chegar para fazer a segurança noturna do local do crime.
O policial estava indo me deixar em casa, após eu decidir que era melhor pensar no dia seguinte, com a cabeça fresca, quando meu telefone tocou.
- Paul Rocket?
- Ele mesmo.
- Policial Jones. Um cadáver foi encontrado e me informaram na delegacia que o senhor deveria ser chamado ao local de crime, pois poderia lhe interessar.
Desta maneira, desisti de ir dormir cedo e pedi ao policial que me levasse ao endereço passado no telefonema.
O endereço era de uma loja de aquários. Quando a viatura parou, pude ver um policial e uma moça abraçada a uma senhora, aparentemente chorando.
- Você é o policial Jones?
- Sim, sr. Rocket.
- O que aconteceu?
- Vou relatar o que a garota me contou, pois ela está muito nervosa. O sr. conversa com ela depois, se achar necessário.
- Ok. Conte o que ela disse.
- Ela é faxineira, e recebeu ontem o telefonema de um tal de John Keats que queria que ela fizesse uma faxina na sua loja de aquários.
- John Keats? ... Ok. Prossiga.
- Então o cara disse que a chave estaria na caixa de correio da casa dela hoje à tarde, junto com o pagamento, em um envelope. Que ela deveria fazer a limpeza no turno da noite, e que deixasse a chave na caixa de correio novamente, após terminar.
- Como a garota se chama mesmo?
- Rose Manilow, e essa é a sua mãe, a sra. Manilow.
- Ok, e o que aconteceu?
- A garota veio fazer a faxina, e quando abriu a porta, se deparou com a cena que o senhor vai ver quando entrar, voltou para casa desesperada e sua mãe telefonou para nós.
Entrei então no lugar, e vi o aquário. Um imenso aquário, talvez cinco metros de comprimento, dois de largura e dois de altura. Estava cheio de água, e na parte de baixo tinha alguma vegetação e pedras. O aquário era fechado na parte superior, de forma que não havia maneira de entrar ou sair algo maior do que duas aberturas circulares de dois centímetros de diâmetro, em extremos diferentes da parte de cima, vedadas por tampas de plástico. Dentro do aquário, o cadáver de uma garota, sendo rodeado por peixinhos ornamentais vermelhos. A garota era branca, e tinha os olhos abertos, novamente com uma expressão serena. Estava despida, à exceção de dois braceletes, e seu ventre estava aberto, com alguns órgãos expostos.
Entendi imediatamente porque eu tinha sido chamado. Além de ambas as vítimas terem sido estripadas, na face direita dessa vítima era possível perceber parte de uma mensagem em sangue, agora coagulado. Uma mensagem que, pelo que pude perceber, era muito semelhante à da testa da primeira vítima.
O assassino já podia ser considerado serial. E sua perspicácia me desafiava. A forma como escondia seus passos. Eu tinha certeza de que impressões não seriam encontradas. E suspeitava que o sr. Brown não teria nada a ver com a história, sendo apenas uma isca.
Telefonei imediatamente para a delegacia. Angela não estaria mais lá, mas eu solicitei assim mesmo que, se possível, entrassem em contato com Charles e Joe, pois eu precisava dos resultados da perícia desse novo crime cedo da manhã.
Dei uma olhada na loja. Não tinha dinheiro em caixa, e tinha alguns aquários pequenos, todos vazios. Numa estante, algumas latas de comida para peixes. Tinha um banheiro, não muito sujo. Todo o lugar estava apenas levemente empoeirado. O grande aquário estava no meio da sala. Atrás da mesa do caixa, encontrei algumas ferramentas, possivelmente utilizadas para construir aquários. O lugar não tinha janelas. Assim como a blusa da primeira vítima, as roupas da garota não foram encontradas em parte alguma.
Este assassino não gostava muito de deixar pistas... Eu estava diante do maior desafio da minha não muito longa vida profissional.
(inspirado na imagem acima, sugerida por Lucas Altamar)
O Mistério dos Assassinatos em Sânscrito – Parte II
0 comentários Postado por Elvis "Wolvie" às 23:09
Descartei imediatamente a possibilidade de suicídio, pois a moça estava deitada em forma de cruz e não poderia ter pregado em si mesma os pregos que a mantinham fixa ao chão, nos pulsos e tornozelos. Como se isso não bastasse, seu abdômen estava aberto, e vários de seus órgãos estavam revirados e espalhados por sobre seu corpo despido.
Mas o mais bizarro daquela cena brutal era uma inscrição feita em sangue na testa da garota, em um idioma que eu desconhecia. Parecia antigo, talvez sânscrito. Era o retrato mórbido de um assassinato cruel realizado por uma pessoa de aparente cultura elevada, mas com um notável e perigoso distúrbio psicológico.
Com certeza, não era um dia como os outros. Eu precisava avaliar em detalhes essa cena e descobrir o quanto antes o paradeiro do assassino, pois um calafrio na minha espinha me alertava de que esse poderia ser apenas o primeiro de uma série de crimes complexos e inexplicáveis.
Telefonei para a delegacia e solicitei que a perícia viesse o mais rápido possível. Em seguida, pedi que Angela conseguisse um especialista em idiomas antigos.
Enquanto a perícia não chegava, aproveitei para observar alguns detalhes da cena bizarra em que eu encontrava-me inserido. Cobrindo a cama tinha um lençol bagunçado. Não havia poeira em cima do lençol, o que parecia garantir que alguém tinha usado há pouco tempo. Embaixo da cama só havia poeira, mais algumas baratas e um rato morto. Constatei que os pratos em cima da pia continham restos de pizza e comida chinesa, o que foi confirmado pelas caixas encontradas debaixo da pia. Com certeza haveria impressões digitais. No armário encontrei uma caixa de cereais e um queijo mofado, além de uma faca de cozinha. O banheiro era claustrofóbico e estava imundo. Tinha cabelos no ralo e eram curtos e escuros.
Nenhuma pista realmente interessante. Mas confio na perícia e nas impressões. Telefonei novamente para Angela e pedi para ela verificar quem era o proprietário do imóvel, se estava alugado, etc.
Eram 11:30 quando os peritos chegaram. Um especialista em análises químicas e um médico. Joe e Charles. Mostrei a eles o local todo, pedi para Joe coletar impressões por toda parte. Pedi para analisar os restos de comida, os cabelos do ralo, e também o sangue da inscrição na testa da vítima. E pedi a Charles que identificasse o horário e a causa da morte.
Deixei-os trabalhando, pedi a um policial que ficasse de vigia e fui almoçar com o outro policial, o que foi dirigindo a viatura. Eu tinha visto na vinda uma cantina italiana a apenas duas quadras.
Almocei calmamente, enquanto refletia sobre o crime. Por que a vítima estava com uma expressão calma? Como o assassino tinha saído do quarto? O que significava aquela inscrição?
Após almoçarmos, telefonei novamente para Angela.
- Cadê o especialista em idiomas??
- Há apenas dois na universidade. Um está viajando e falei com esposa do outro, ele não está em casa, ela não sabe aonde foi nem usa celular. Mas pedi que retornasse quando ele aparecesse.
- E o proprietário do edifício?
- Um tal de William Hughes. Está alugado há dois meses no nome de James Joyce.
- James Joyce? Só pode ser falso! Peça ao sr. Hughes para comparecer à delegacia amanhã pela manhã.
Voltei ao local do crime e observei a perícia terminar o seu trabalho. Charles concluiu logo:
- Não pude ainda identificar a causa da morte, Paul. Terei que fazer análises laboratoriais. Mas uma coisa é certa: ela estava viva quando os pregos foram fincados e quando o ventre foi aberto. Quem tiver pregado a garota no chão, usou de muita força, pois os braços foram atravessados pelos pregos em um único movimento. Ao mesmo tempo, usou de delicadeza ao abrir o abdômen dela. Tem conhecimentos anatômicos, pois não feriu nenhum órgão, apenas tirou-os do lugar.
- Posso assumir que usou um bisturi?
- Possivelmente.
- E o horário?
- Essa parte é preocupante. A garota está morta desde 15:50 de ontem.
Joe demorou mais algumas horas, realizando as mais diversas análises. A tarde estava acabando quando ele me chamou para relatar os resultados:
- Cara, tá lotado de impressões por todo canto. A garota deixou impressões no corrimão, num copo, na torneira e em alguns lugares pelo chão. As demais impressões são de um cara chamado Dennis T. Brown. 32 anos, não é fichado. Contudo...
- Vamos, diga logo!
- O sangue na testa não é da garota nem do dono dos cabelos no ralo, que também deixou saliva nos pratos.
- E não tem impressões na testa dela, de quem tenha colocado esse sangue?
- Não.
Saí do edifício. Era noite. Eu tinha mais perguntas que antes. Mas tinha algumas pistas também, e o sr. Brown estava encrencado.
A rua era escura e um poste distante fazia a iluminação. Seria prudente interrogar a vizinhança, para ver se alguém tinha notado algo suspeito.
Avistei um movimento distante e me virei bruscamente. Mas era só um gato. Um gato preto, cuja sombra longilínea tinha me assustado. O gato subiu no muro e dele saltou para a janela do edifício, no primeiro andar, e entrou.
(inspirado na imagem acima, sugerida por Mariana Sathie)
Postagens mais recentes Postagens mais antigas Página inicial